
A região da chamada Cracolândia completa nesta quarta-feira (14) um ano desde o esvaziamento do principal fluxo de usuários de drogas na Rua dos Protestantes, no bairro de Santa Ifigênia, no Centro da capital paulista.
O local, que chegou a reunir cerca de 4 mil dependentes químicos em períodos anteriores, amanheceu vazio em 14 de maio de 2025 após uma sequência de operações policiais, ações urbanas e intervenções sociais promovidas pelo poder público.
Doze meses depois, o cenário ainda divide opiniões entre autoridades estaduais, Prefeitura de São Paulo e movimentos sociais. Enquanto o governo aponta redução nos índices de criminalidade e ampliação da rede de atendimento, organizações civis afirmam que o problema apenas foi fragmentado para outras regiões da cidade.
Governo atribui esvaziamento a operações e desabastecimento
Segundo o Governo de São Paulo, o desaparecimento do fluxo ocorreu por uma combinação de fatores ligados principalmente ao combate ao tráfico de drogas.
Entre os pontos citados pelas autoridades estão as ações na Favela do Moinho, considerada pelas investigações um centro logístico do Primeiro Comando da Capital para abastecimento da Cracolândia.
Operações policiais como “Downtown” e “Salus et Dignitas” também fecharam hotéis, pensões e ferros-velhos suspeitos de lavagem de dinheiro e apoio à distribuição de drogas na região central.
O governo estadual afirma ainda que o uso intensivo da Guarda Civil Metropolitana, aliado ao aumento das internações voluntárias e ao desabastecimento de crack, contribuiu para a dispersão dos usuários.
Queda nos índices de criminalidade
Dados da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo apontam forte redução nos roubos registrados na região dos distritos policiais de Campos Elíseos e Santa Cecília.
Segundo o levantamento, os casos caíram 70%, passando de 2.905 ocorrências no primeiro trimestre de 2023 para 881 no mesmo período de 2026.
Comerciantes da região relatam melhora na sensação de segurança, embora afirmem que o comércio ainda vive um período de recuperação econômica e readaptação após anos de impacto causado pela concentração de usuários e pelo aumento da violência.
Prefeitura aposta em urbanização e habitação
A gestão do prefeito Ricardo Nunes afirma que o fim do fluxo abriu espaço para um processo de requalificação urbana no Centro.
Entre as medidas anunciadas estão a construção de moradias populares, áreas de lazer e novos espaços públicos exatamente onde antes funcionava a principal concentração de usuários.
A Prefeitura também enviou projeto para conceder isenção de IPTU por dois anos a imóveis comerciais e residenciais da região afetada pela Cracolândia.
Outro ponto destacado pela administração municipal é a remoção gradual da Favela do Moinho, considerada estratégica para desmontar o abastecimento de drogas na área central. Mais de 800 famílias já teriam sido transferidas.
Movimentos sociais denunciam dispersão e violência
Apesar do discurso oficial, entidades de direitos humanos e organizações sociais afirmam que a Cracolândia não acabou, mas apenas se espalhou por diferentes pontos da capital paulista.
Segundo representantes do projeto Teto, Trampo e Tratamento (TTT), pequenos fluxos passaram a surgir em regiões como Glicério, Barra Funda, Sé, Ceagesp e Avenida Roberto Marinho.
Ativistas também denunciam aumento da violência policial durante as ações de dispersão e criticam o enfraquecimento das políticas de redução de danos.
A atuação da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo gerou controvérsia após denúncias envolvendo uso de spray de pimenta, abordagens violentas e remoções forçadas durante operações na região central.
Desaparecimento de imagens gera polêmica
Outro episódio que gerou repercussão foi o apagamento das imagens do sistema Smart Sampa referentes aos dias da dispersão da Cracolândia, entre 1º e 13 de maio de 2025.
As gravações haviam sido solicitadas pela Justiça para apurar possíveis excessos durante as operações. A Prefeitura alegou que os arquivos foram apagados automaticamente após o prazo legal de armazenamento previsto pela LGPD.
O caso provocou críticas de parlamentares da oposição e organizações civis, que cobraram maior transparência sobre as ações realizadas na região.
Região segue em monitoramento
Um ano após o esvaziamento histórico, o poder público mantém ações de monitoramento para evitar a formação de novos grandes fluxos de usuários de drogas no Centro de São Paulo.
Enquanto autoridades defendem que a Cracolândia deixou de existir como era conhecida nas últimas décadas, especialistas e movimentos sociais alertam que o desafio social e de saúde pública relacionado à dependência química permanece longe de uma solução definitiva.