
Nova estratégia da administração Trump coloca o combate ao narcotráfico no centro da política para a América Latina e inclui sanções contra brasileiros investigados por suposta ligação com a facção.
O governo dos Estados Unidos elevou o tom contra o Primeiro Comando da Capital (PCC) ao classificá-lo como a maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental. A declaração consta em um comunicado divulgado pelo Departamento do Tesouro norte-americano nesta quarta-feira (1º), acompanhado da aplicação de novas sanções financeiras contra dois brasileiros e três empresas suspeitos de participação em um esquema de lavagem de dinheiro ligado à facção.
Segundo as autoridades americanas, o PCC ampliou significativamente sua atuação nos últimos anos, expandindo suas operações para diversos países, incluindo Reino Unido, Turquia e Japão, além de representar uma ameaça crescente à segurança dos Estados Unidos.
As medidas fazem parte da primeira rodada de sanções anunciadas após a decisão de Washington, em maio deste ano, de enquadrar o PCC e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
Brasil passa a ocupar posição estratégica
A referência ao “Hemisfério Ocidental” reforça a nova orientação da política externa e de defesa da administração do presidente Donald Trump, que tem priorizado a América Latina em sua agenda de segurança nacional.
Nos últimos meses, a Casa Branca divulgou documentos estratégicos que estabelecem como objetivos o fortalecimento da presença militar dos Estados Unidos no continente, o combate ao narcotráfico, o enfrentamento da imigração ilegal e a contenção da influência chinesa na região.
Entre as diretrizes apresentadas está a ampliação da cooperação com governos aliados para combater organizações criminosas transnacionais, além da possibilidade de adoção de medidas unilaterais quando interesses considerados estratégicos pelos EUA estiverem em risco.
Estratégia prevê atuação mais ampla
A Estratégia Nacional de Defesa divulgada pelo governo americano afirma que os Estados Unidos pretendem garantir sua predominância militar e comercial “do Ártico à América do Sul”. O documento adota o conceito de “paz por meio da força”, expressão frequentemente utilizada por Donald Trump desde o início de seu segundo mandato.
O plano também estabelece como prioridades:
- intensificar o combate aos cartéis de drogas;
- ampliar operações de fiscalização marítima por meio da Guarda Costeira e da Marinha;
- reforçar o controle das fronteiras;
- ampliar o acesso americano a áreas consideradas estratégicas nas Américas;
- fortalecer parcerias com países aliados para desarticular organizações criminosas.
Outro documento de política externa divulgado pela Casa Branca reafirma a intenção dos Estados Unidos de recuperar protagonismo no Hemisfério Ocidental, mencionando a Doutrina Monroe como referência para a atuação americana na região.
Sanções financeiras
As sanções anunciadas pelo Departamento do Tesouro têm como objetivo bloquear ativos e restringir operações financeiras de pessoas e empresas apontadas como integrantes da estrutura de lavagem de dinheiro do PCC.
Segundo o governo americano, o objetivo é dificultar o financiamento das atividades criminosas da facção e ampliar a cooperação internacional no combate ao crime organizado.
PCC e Comando Vermelho continuam no foco
Desde maio, PCC e Comando Vermelho passaram a ser considerados organizações terroristas pelas autoridades dos Estados Unidos.
Na ocasião, o secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que ambas as facções expandiram suas atividades para além das fronteiras brasileiras e representam ameaça à segurança regional e aos interesses norte-americanos.
A administração Trump sustenta que continuará utilizando instrumentos diplomáticos, financeiros e de segurança para reduzir a capacidade operacional dessas organizações e interromper suas fontes de financiamento.
Governo brasileiro reage
O governo brasileiro criticou a decisão dos Estados Unidos de classificar as facções como organizações terroristas e reiterou a defesa da soberania nacional.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou anteriormente que o combate ao crime organizado deve respeitar a legislação brasileira e as instituições nacionais.
Nos bastidores do Palácio do Planalto, integrantes do governo avaliam que a classificação pode ampliar a margem para medidas unilaterais dos Estados Unidos, embora especialistas ressaltem que uma eventual ação militar em território brasileiro dependeria de complexos fatores diplomáticos e jurídicos previstos no direito internacional.
Enquanto isso, autoridades brasileiras destacam que a legislação nacional já prevê instrumentos rigorosos para o enfrentamento das organizações criminosas, incluindo penas severas para integrantes de facções envolvidas com tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e outros crimes de alta gravidade.