
Especialistas alertam que eventual decisão dos Estados Unidos pode afetar o combate ao crime organizado e gerar consequências políticas e operacionais para o Brasil
A possibilidade de os Estados Unidos classificarem facções criminosas brasileiras como organizações terroristas voltou ao centro do debate internacional. A discussão ganhou força diante de uma possível visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Washington e de pressões políticas dentro do governo norte-americano.
Nos bastidores da política externa americana, aliados do ex-presidente Donald Trump defendem que grupos como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) sejam oficialmente designados como organizações terroristas.
Segundo fontes diplomáticas em Washington, o Departamento de Estado dos Estados Unidos reconhece essas facções como uma “ameaça regional”, embora não confirme oficialmente a intenção de aplicar a classificação de terrorismo.
Debate voltou à pauta no Congresso americano
A ideia de rotular facções brasileiras como terroristas não é recente. Desde 2025, o tema surge em momentos de tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos.
Recentemente, uma comissão de segurança interna do Congresso americano retomou o debate, impulsionado principalmente por parlamentares republicanos que defendem uma postura mais rígida contra organizações criminosas transnacionais.
Caso essa designação seja adotada, o governo dos Estados Unidos passaria a ter instrumentos adicionais para combater esses grupos, incluindo:
- bloqueio internacional de recursos financeiros;
- restrições de visto e entrada no país para pessoas ligadas às facções;
- ampliação da cooperação com forças de segurança estrangeiras;
- possibilidade de operações conjuntas em território internacional.
Divergência entre governos no Brasil
O tema também provocou divergências dentro do próprio Brasil.
Enquanto o governo estadual de São Paulo vê a proposta como uma oportunidade para fortalecer o combate ao crime organizado, o governo federal brasileiro demonstra resistência à classificação.
Autoridades federais avaliam que a medida poderia interferir na estratégia nacional de segurança pública e gerar impactos diplomáticos nas relações entre os dois países.
Em 2025, uma delegação americana composta por representantes do Departamento de Estado esteve no Brasil para discutir o assunto com autoridades federais e estaduais.
Especialistas apontam problemas técnicos
Especialistas em segurança pública e direito internacional alertam que há diferenças fundamentais entre organizações terroristas e grupos do crime organizado.
A legislação brasileira define terrorismo como ações motivadas por ideologia, política ou discriminação, enquanto facções como PCC e Comando Vermelho atuam principalmente por interesses econômicos ligados ao narcotráfico e ao controle territorial.
Para analistas, tratar essas facções como grupos terroristas poderia gerar efeitos colaterais no combate ao crime.
Risco de prejudicar investigações
Outro ponto levantado por especialistas é o possível impacto nas estratégias de inteligência.
Atualmente, o combate ao narcotráfico depende de técnicas policiais específicas, como infiltração de agentes e operações de inteligência financeira. Caso o crime organizado seja enquadrado como terrorismo, o protagonismo poderia migrar para estruturas militares.
Segundo especialistas, forças armadas são treinadas para enfrentar ameaças externas e conflitos armados, e não para operações complexas de infiltração criminal em áreas urbanas.
Impacto em comunidades vulneráveis
Analistas também alertam para riscos operacionais em áreas densamente povoadas.
A aplicação de doutrinas militares em regiões onde criminosos e civis convivem — como comunidades urbanas — poderia elevar o risco de vítimas inocentes.
Para especialistas, o combate eficaz ao crime organizado exige estratégias próprias, diferentes das utilizadas contra grupos terroristas internacionais.
“Nem toda situação extremamente grave caracteriza terrorismo”, destacam analistas de segurança.
Debate ainda deve crescer
Com o tema voltando à pauta no Congresso americano e diante das tensões diplomáticas na região, a discussão sobre a classificação das facções brasileiras como organizações terroristas deve continuar nos próximos meses.
Enquanto parte da comunidade internacional defende medidas mais duras contra o crime organizado transnacional, especialistas brasileiros defendem cautela para evitar impactos negativos nas políticas de segurança pública.