
Diplomatas citam México como alerta para possíveis sanções financeiras
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avalia com cautela os desdobramentos da decisão dos Estados Unidos de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. Nos bastidores do Palácio do Planalto, cresce a preocupação com possíveis efeitos econômicos e financeiros da medida, especialmente sobre o sistema bancário.
Auxiliares do presidente apontam que o enquadramento pode abrir caminho para sanções e restrições a instituições financeiras que, ainda que indiretamente, apareçam em investigações relacionadas a organizações criminosas como o PCC e o Comando Vermelho.
A principal apreensão é que a legislação antiterrorismo dos Estados Unidos passe a atingir operações financeiras envolvendo o Brasil, reproduzindo efeitos semelhantes aos observados em outros países da América Latina. O México é citado por diplomatas como um exemplo relevante, após o endurecimento da política americana contra cartéis de drogas, que acabou impactando bancos e empresas locais.
Dentro do governo brasileiro, há o entendimento de que a medida pode levar instituições financeiras globais a adotarem critérios mais rígidos em transações com origem ou destino no Brasil, ampliando o risco de barreiras e restrições no mercado internacional.
A avaliação é de que o tema pode ganhar proporções difíceis de controlar, caso haja expansão dos mecanismos de sanção por parte dos Estados Unidos.
Diante desse cenário, integrantes do Planalto defendem que o Brasil reforce o discurso de cooperação internacional no combate ao crime organizado, sem aceitar iniciativas que possam ser interpretadas como interferência externa em instituições nacionais ou que prejudiquem a atividade econômica.
A estratégia do presidente Lula deve enfatizar os possíveis efeitos colaterais da decisão americana, ao mesmo tempo em que reafirma o compromisso do país com o enfrentamento ao crime organizado transnacional. A posição brasileira é de que esse combate deve ocorrer por meio de instrumentos tradicionais, como cooperação policial, judicial e diplomática.
O governo brasileiro já vinha defendendo uma atuação conjunta com os Estados Unidos em áreas como troca de informações, combate à lavagem de dinheiro, tráfico de armas e rastreamento de recursos ilícitos.
Em maio, Lula chegou a entregar pessoalmente ao presidente americano, Donald Trump, uma proposta formal de cooperação entre os dois países. Na ocasião, no entanto, a classificação de facções brasileiras como organizações terroristas não foi discutida entre os líderes.